O que têm os patos de interessante para saber?

Todos os anos no inverno, Portugal é "invadido" por aves que, procurando dias mais longos, climas mais amenos e maior disponibilidade alimentar, passam o inverno em latitudes mais próximas do equador, abandonando os seus territórios de reprodução que voltarão a visitar na próxima primavera. Neste artigo falarei sobre patos e espécies relacionadas. Apesar da grande maioria das espécies não se reproduzir em Portugal, temos algumas que sim, como o Pato-Real (Anas platyrhynchos), ou Frisadas (Anas strepera) que nidificam principalmente a sul do Tejo, ou até Zarros-castanhos (Aythya nyroca) que embora seja considerada uma raridade em toda a Europa, existem registos de nidificação no Algarve. Contudo, é mais ou menos nesta altura que as coisas ficam animadas com a chegada das populações invernantes.

Arrabio (Anas acuta) - Silvio Sola


Estas aves pertencem à família 'Anatidae' que inclui patos, gansos e cisnes. Estão distribuídos por todos os continentes com exceção da Antárctida numa enorme variedade de habitats distintos entre si. Há espécies que podem ser encontradas por todo o mundo e algumas com uma distribuição mais localizada. Os patos, podem ser divididos em 2 grupos: patos mergulhadores e patos de superfície, ou seja, aqueles que mergulham para procurar alimento e aqueles que o fazem à superfície sem ter que emergir o seu corpo na totalidade. Quanto às suas preferências de habitat, alguns como o Êider (Somateria mollissima) têm hábitos preferencialmente marinhos, embora possam ser encontrados em habitats de água salobra e mais raramente em habitats de água doce. Já uma Tadorna (Tadorna tadorna), é um anatídeo que prefere áreas abertas e descampadas, é frequentemente encontrada em campos agrícolas ou em prados costeiros. Um pato-trombeteiro (Anas clyepata) tem uma clara preferência por pântanos ou lagoas eutróficas, ou seja, lagoas onde existe pouco oxigénio dissolvido no meio aquático mas uma grande carga de nutrientes - alta produtividade -, sendo este tipo de lagoas caracterizadas por um crescimento abundante de plantas aquáticas e macroalgas.
Curiosidade: Este tipo de habitats são caraterizados por uma grande diversidade de plantas macrófitas, que traduzindo para uma linguagem mais simples; são plantas terrestres que evoluíram para se adaptarem ao meio aquático, tendo características de ambas. Possuem por isso uma grande adaptação perante diferentes condições de meio. 

                                                                     Pato trombeteiro (Anas clyepata) - Paulo Campos

No caso de um Ganso-bravo (Anser anser) acredita-se que tenha sido uma das primeiras espécies a serem domesticadas, algo que ocorreu há mais de 3000 anos, no antigo Egipto. Os gansos são divididos em dois grupos: gansos cinzentos, pertencentes ao género Anser, e os gansos pretos pertencentes ao género Branta. Observar um bando de gansos em migração é um momento único. Hoje sabe-se  que as formações de voo em V permite aos indivíduos que vão mais atrás (normalmente mais velhos, doentes, ou jovens sem experiência) sofrerem menos com  as adversidades que esta grande jornada representa. Assim, os indivíduos mais fortes vão-se revezando na frente do grupo, algo fundamental  pois certamente não será fácil para uma ave que pode chegar a ter  6/7 kg fazer migrações de milhares de quilómetros, logo a liderança tem que ser partilhada. Alimenta-se principalmente em pastagens e a base da sua alimentação são plantas, raízes, tubérculos, folhas, talos, flores e frutos.


Ganso-de-testa-branca (Anser albifrons) - Ruedi Aeschlimann - Visitante raro no nosso país à semelhança do seu congénere Anser anser que é uma invernante regular no nosso país
Curiosidade: É sabido que existem espécies do género Anser que são campeãs no que toca a migrações em altitude, migrando a cerca de 9 mil metros de altitude. Espécies deste género aprenderam a aproveitar o que se chama de elevação orográfica - fluxo de ar ascendente causado pelas montanhas -, no sentido de ganhar mais altitude e reduzir assim o esforço que teriam de fazer. Aproveitando a resistência diminuta que as massas de ar oferecem lá em cima, tornam a sua tarefa bem menos complicada. Contudo, o ar é rarefeito, o que levou esta ave a ter que se adaptar para sobreviver ao grande fenómeno da migração (e certamente ao frio que se deve sentir lá em cima). 


No que diz respeito aos verdadeiros patos (género Anas) o mais pequeno que podemos encontrar na Europa são as Marrequinhas que podem chegar a pesar 400 gr. Comparativamente, um pato-real pode facilmente chegar às 1400 gramas e um Cisne-mudo (Cygnus olor) macho pesa em média 12 kg. 


 Marrequinha (Anas crecca) - Letharlphoto

Curiosidade: Esta não é contudo a ave mais pesada da Europa. Esse galardão pertence à Abetarda (Otis tarda), uma das aves mais emblemáticas das estepes alentejanas e também das mais intolerantes à presença humana sendo por isso de difícil observação. Um macho pode facilmente chegar aos impressionantes 16 kg sendo a região de Castro Verde o melhor local de observação desta espécie. É uma espécie reprodutora em Portugal continental e tem um estatuto a nível global de vulnerável. Segundo o portal aves de Portugal, tem um efectivo de cerca de 1000 indivíduos e está classificada como em perigo para o território nacional. Certamente os olivais super-intensivos do Alentejo não ajudam em nada esta e outras espécies estepárias emblemáticas, mas este é um tema para outro post. 


Abetarda (Otis tarda) - Marco Valentini
Voltando ao tema principal, existe um aspecto na biologia dos anatídeos que deve ser realçado. Sendo aves aquáticas, a termorregulação é fundamental para a sua sobrevivência, logo impedir a água de tocar o corpo é essencial. Assim, eles arranjaram um mecanismo: Uma glândula localizada no urupígio e que produz algo semelhante a um óleo, que espalhando pelas penas com o bico permitem que fiquem impermeabilizadas. Quem nunca viu um pato a encerar as penas com o bico? Pensavas que estava simplesmente a pentear-se? :)

Dessa forma já não passam frio e o seu corpo mantém-se aquecido, podendo mergulhar sem problemas. Perante o frio que se faz sentir ultimamente, uma cera protectora era brutal, não acham?

...E se fazer a migração por terra pode ser doloroso, imaginam o que faz uma ave atravessar todo o oceano atlântico para nos visitar? Parece surreal, mas acontece. E a prova disso foram algumas aves que por cá apareceram muito recentemente. Os fortes ventos de tempestades em alto mar, entre outros factores, fazem aves perderem-se das suas rotas migratórias e virem parar ao nosso continente, como foi o caso este ano de um Garçote-verde (Butorides virescens), por cá se mantém à meses e continua a ser observado no Algarve, ou um Perna-amarela-grande (Tringa melanoleuca). Nos patos, aparentemente alguns também se perdem…Todos os anos há patos americanos como a Piadeira-Americana (Anas americana), a Marrequinha-Americana (Anas carolinensis) ou até o Zarro-Ameriano (Aythya affinis) que se "perdem" e vêm cá parar. Porquê? Talvez alguns até sejam fugas cativeiro mas alguns efectivamente atravessam o Atlântico...

Então e qual seria o aspecto mais importante na vida de qualquer ser vivo? Reprodução! :) Ao longo do ano as aves efectuam mudas das penas, parciais ou totais. Ora porque ficam gastas, ora porque nem sempre precisam de chamar à atenção, ou porque os parasitas são uns chatos...é no inverno que os machos adquirem a plumagem nupcial chegando, a maior parte deles, a Janeiro já com a muda completa (dependendo daquilo que é a estratégia de muda para cada espécie). É igualmente durante este período que formam casais. Finda a época de reprodução, entram em plumagem eclipse onde machos e fêmeas perdem as penas de vôo, ficando com uma plumagem semelhante entre ambos sexos. Este é igualmente o período que representa mais problemas à sua sobrevivência, pois perdendo a capacidade de voar ficam mais sujeitos à predação.

Êider (Somateria mollissima) - Christophe Gouraud
Curiosidade: Alguns patos produzem híbridos, pensa-se que pelo facto de numa determinada área existir uma espécie representada por um grande número de indivíduos e outra por poucos. Poderá igualmente acontecer quando determinada espécie tem dificuldade em encontrar parceiro/a, assim sendo, reproduzem-se com uma espécie cujas características são semelhantes (Lei da sobrevivência…! Apesar de que na maior parte das vezes não terem descendentes férteis). A ocorrência de híbridos é aparentemente mais comum em zonas onde existem poucos indivíduos de cada espécie, tais como parques de cidades ou parques temáticos. Há um conjunto de variáveis que talvez ainda não tenham sido combinadas para que se possa concluir o que leva determinado indivíduo de uma espécie a reproduzir-se com outra diferente (relembro que a definição de espécie passa por produzir descendência fértil) mesmo sabendo que o sucesso pode ser nulo. Creio que cada vez mais esta é uma palavra obsoleta, que carece de uma definição com mais amplitude. Ainda por explicar, está o facto de os híbridos serem mais frequentes em espécies de gansos (Anser sp. & Branta sp.) e espécies de Zarros (Aythya sp.). do que em patos de superfície (Anas sp. & Mareca sp.). Que eu saiba não existe uma explicação para este facto até à data. Identificar com certeza a espécie original  do macho e a espécie original da fêmea, pode nalguns casos ser algo complicado de descobrir. 
Híbrido entre Pato-Real (Anas platyrhynchos) e Arrabio (Anas acuta) - Carl Gunnar Gustavsson
O registo de maior longevidade em Portugal foi registado num Pato-real (Anas platyrhynchos), que foi anilhado em 1998 como sendo um jovem nascido nesse ano, e foi observado pela última vez em 2012. Esta ave, capturada na Reserva Natural Dunas de São Jacinto, junto da Ria de Aveiro morreu com 14 anos de idade! Algo impressionante, se pensarmos na enorme pressão cinegética exercida naquele território, e se pensarmos também que o Pato-real é a ave mais caçada em Portugal, logo seguido da Marrequinha (Ana crecca) (Rodrigues, D.  2013).

O movimento migratório mais longínquo registado foi um macho de Piadeira (Anas penelope), que foi capturado em Portugal, tendo sido posteriormente caçado na Sibéria - Rússia.  Em linha recta estamos a falar de 5.392 km! Curiosamente, o pato que maior distância percorreu ao longo da sua vida, pertence à mesma espécie supra referida, tendo sido observado na Finlândia e reavistado em Portugal no mesmo local, durante 8 anos consecutivos. Fazendo contas, voou pelo menos 43 000 km. Num grupo de espécies que leva chumbo como talvez nenhum outro grupo de aves, conseguir sequer obter este tipo de dados é obra! Coitados, que "sorte marreca"!

Por falar em marrecos, deixo-vos o verdadeiro!


                                                                  Marreco (Anas querquedula) - Nikolay Staykov



 Bom Ano Novo,

 Luís Ribeiro

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